50 anos do Museu

 

Museu Histórico Visconde de São Leopoldo: rumo ao cinqüentenário

 

Marcos Antonio Witt*

 

Só o passado verdadeiramente

nos pertence. O presente...

O presente não existe

Manuel Bandeira[1]

 

O Museu Histórico Visconde de São Leopoldo (MHVSL) é uma entidade privada, sem fins lucrativos. Sua origem está relacionada, conforme Telmo Lauro Muller, à iniciativa de dez municípios que, originalmente, faziam parte do município de São Leopoldo, ponto inicial da imigração e colonização alemã no Sul do Brasil. Representantes destas cidades uniram-se em torno de um objetivo comum: fundar um museu onde pudessem guardar objetos, livros, documentos... e assim tentar preservar a história da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Fundado em 20 de setembro de 1959, o MHVSL já contabiliza 50 anos de história, pajeados em quase sua totalidade pelo Professor Telmo Lauro Müller, um dos fundadores do museu, mas também seu diretor, historiador, pesquisador, atendente, entre tantas tarefas por ele executadas. Hoje, o MHVSL ampliou sua missão, sendo visto e reconhecido como o museu da imigração alemã, de outras etnias, assim como o museu da cidade de São Leopoldo.

Sendo uma entidade privada, sem fins lucrativos, as receitas do museu provêm da prefeitura municipal de São Leopoldo, de aluguéis de imóveis, da mensalidade de mantenedores (pessoas físicas e jurídicas), de cursos oferecidos à população, como curso de idioma e restauração de livros, dos ingressos para visitação e de doações diversas. Administrado por uma diretoria legalmente constituída, o MHVSL conta com o auxílio de uma rede de voluntários e colaboradores, fundamentais para a execução das múltiplas tarefas pertinentes ao seu dia-a-dia.

As atividades desenvolvidas no MHVSL estão divididas em três grandes grupos: 1) aquelas que estão relacionadas à guarda, manutenção e exposição do acervo de objetos; 2) as que se referem à manutenção, classificação e catalogação da biblioteca e outros acervos de cunho bibliográfico, como jornais e revistas; 3) e aquelas que estão ligadas à guarda, manutenção, catalogação e pesquisa dos documentos do arquivo histórico do museu, sobretudo a documentação referente à história de São Leopoldo desde o século XIX. Soma-se a este arquivo, o acervo de mapas e fotografias. Muitas destas tarefas têm sido desenvolvidas com o auxílio de estagiários, especialmente da FEEVALE, FACCAT e UNISINOS. Além da cooperação, os estagiários representam o vínculo com as universidades. A comunicação museu-universidade é vital para o MHVSL, pois se entende que estas duas instituições devem andar lado a lado, próximas, promovendo atividades conjuntas ou afins que visem à excelência da educação através de manifestações culturais.       

Com a proximidade do aniversário de 50 anos, criou-se um logotipo referente à efeméride. Dos projetos realizados e em andamento, destaca-se o Música no Museu, desenvolvido desde o ano de 2007, sempre no último final de semana de cada mês, em parceria com o Projeto Sonarte e com o Movimento Coral UNISINOS. Outro aspecto relevante da trajetória do MHVSL é sua capacidade de adaptação aos novos tempos. A fim de não permitir que sua imagem ficasse vinculada à de uma instituição estática, passiva, o MHVSL adquiriu novas feições, como a de uma casa cultural, na qual se ouve música, se lançam livros, ocorrem apresentações de Natal, entre outras atividades culturais. No ano de 2008, por exemplo, foram realizados cinco lançamentos de livros: Márcio Linck - Para além do ambientalismo; Associação Nacional de Pesquisadores da História das Comunidades Teuto-Brasileiras - Entre vales e serras: fronteiras; Marcos Antônio Witt - Em busca de um lugar ao sol: estratégias políticas (Imigração alemã – Rio Grande do Sul – século XIX); Marilene Müller de Vargas - Eu me lembro: provas de amor e guerra; Antonio Sidekum, Imgart Grützmann e Isabel Cristina Arendt - Campos Múltiplos: Identidade, cultura e história. Festschrift em homenagem ao Prof. Arthur Blasio Rambo.

            Da mesma forma, o MHVSL elaborou dois ciclos de palestras com o objetivo de proporcionar ambiente de discussão e aprofundamento sobre temas relacionados à história de São Leopoldo e/ou do Rio Grande do Sul. O 1º. ciclo, realizado no 1º. Semestre de 2008, em parceria com a FACCAT (Faculdade de Taquara) e com o Instituto Martim Pescador, teve como título O rio dos Sinos tem história(s). Os temas selecionados para explanação e discussão foram navegação; economia e mercado de terras; urbanização; sociabilidade; e meio-ambiente. O 2º. Ciclo de palestras esteve vinculado à exposição A criança na imigração, constituída de vinte banners com imagens de crianças do século XX, de brinquedos, de livros de literatura infantil e de material didático utilizados pelas crianças deste período. A exposição foi elaborada pelo MHVSL e inaugurada no dia 25 de julho de 2008. De natureza itinerante, irá percorrer outras cidades e instituições, divulgando, assim, agentes históricos pouco contemplados na história da imigração no Rio Grande do Sul. Os temas desenvolvidos nas palestras foram a criança como imigrante; as brincadeiras e o lazer; a educação e a sala de aula; e o relacionamento entre gerações, sobretudo entre avós e netos. O 2º. ciclo de palestras foi realizado em parceria com o Instituto Histórico de São Leopoldo (IHSL).

No campo cultural, o MHVSL inovou ao produzir conjuntamente com a maestrina Ingeburg Hasenack, do grupo Sonoridad, a História de Natal de Carl Orff. Com o sucesso da encenação de dezembro de 2007, a peça foi reapresentada em dezembro de 2008. Ainda no campo da música, o museu, em parceria com o Projeto Sonarte, lançou, na noite do dia 28 de novembro de 2008, o Quarteto de Cordas Roberto Eggers, ocasião em que homenageou oito de seus fundadores, especialmente os senhores Telmo Lauro Muller e Germano Moehlecke, respectivamente diretor de honra e presidente de honra.

Paralelo a todas estas atividades, o MHVSL mantém o atendimento às escolas. A cada ano, escolas particulares e públicas, de ensino fundamental e médio, de São Leopoldo e de cidades vizinhas, entram em contato para agendar visitas ao museu. De todos os trabalhos realizados na instituição, o atendimento aos alunos talvez seja o que tenha maior caráter sócio-educativo. A visita inicia com uma aula sobre a história do museu e a história de São Leopoldo; após, faz-se a visita guiada, momento em que os objetos do acervo são apreciados pelos visitantes. Daí surgem perguntas, dúvidas, curiosidades... Hoje, a visita é ilustrada com um documentário de dez minutos, o qual apresenta dez temas sobre a história de São Leopoldo. Ao final, cada aluno recebe um folder com uma síntese da história do museu, com o respectivo endereço, telefone e site.

A maioria das escolas visita, também, a Casa da Feitoria, ou Casa do Imigrante, outra sede do MHVSL, localizada no bairro Feitoria. Trata-se da casa onde os primeiros imigrantes alemães foram alojados, em 1824. Em função de sua arquitetura diferenciada, primeiramente uma casa de estilo português, e depois repaginada para um estilo enxaimel, os ambientes foram tematizados. Isto significa que os alunos transitam pelo quarto, cozinha, sala, armazém, como se viajassem no tempo, apreciando móveis e utensílios dos séculos XIX e XX. Hoje, a Casa da Feitoria está sob os cuidados do MHVSL em parceria com as entidades AGPTEA, COOTAF, Escola Agrícola e FEEVALE, destacando-se a atuação das professoras Virgínia Rodrigues e Roswithia Weber. Assim como na sede do MHVSL, a Casa da Feitoria tem sido palco de diversos eventos culturais, como Fandankerb, Chama Crioula, Primavera dos Museus, festas de aniversário do museu, entre outras atividades que têm como objetivo maior estreitar a relação da Casa com os moradores do bairro onde está inserida.

Para o ano de 2009, quando o MHVSL completará seu 50º aniversário, além de diversas comemorações alusivas à data, pretende-se lançar um livro que conte a trajetória do museu ao longo destes 50 anos; lançar o novo site do museu, totalmente reformulado e com maior capacidade de interação com os visitantes virtuais; e reorganizar a biblioteca, a qual continua recebendo novos títulos, o que requer catalogação, guarda e manutenção do acervo.

Ao chegar aos 50 anos, pode-se perguntar o que o museu espera, mas ao mesmo tempo, planeja para o próximo meio século. Como profissional da casa, suspeito que o foco será o equilíbrio entre os propósitos originais e a adequação aos tempos de tecnologia e permanente renovação cultural. Mantendo-se guardião de objetos, livros, jornais, revistas, fotografias, documentos... expondo-os e disponibilizando-os ao público... o museu buscará formas de manter-se atualizado, conectado com as novidades que certamente surgirão ao longo do século XXI. Se conseguir trilhar este caminho, a festa dos cem anos estará garantida.

O MHVSL está sediado à Av. Dom João Becker, 491, Centro, São Leopoldo (CEP 93.010.010), telefones 3592.4557 e 3592.3984, site www.museuhistoricosl.com.br, email museuhistoricosl@terra.com.br. 



* Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS; Historiador no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo (MHVSL); associado ao Instituto Histórico de São Leopoldo (IHSL).

[1] Manuel Bandeira (1886-1968), poeta pernambucano, autor de Liras dos Cinquent’Anos, Estrela da Tarde e outras obras.