Biografias

Pastor Carlos Leopoldo Voges

  

Carlos Leopoldo Voges, 1801-1893, filho de Ferdinand Voges e Anastácia Hammerstein, natural de Friedberg, próximo de Hildesheim/Hannover, Alemanha, chegou ao Brasil em 11 de fevereiro de 1825, solteiro, unindo-se a Elisabeth Diefenthäler, na Colônia de São Leopoldo, em 24 de março de 1828. O casal teve cinco filhos: Catarina Frederica, Catarina Elisabeth, Adolfo Felipe, Carlos Frederico e Jacó. A chegada de Voges ao Brasil foi marcada pelo naufrágio da embarcação “Flor de Porto Alegre”, em dezembro de 1824, próximo a Mostardas/RS. Neste acidente, segundo ele, perdeu os documentos que comprovariam sua formação teológica.  

Ao chegar à Colônia de São Leopoldo, deparou-se com uma situação inesperada: havia apenas uma vaga para pastor titular e três candidatos. Seus concorrentes eram Ehlers e Klingelhoeffer. Para resolver o impasse, o governo provincial sugeriu a Voges, em 11 de outubro de 1826, que assumisse vaga pastoral junto aos colonos alemães que formariam a Colônia alemã das Torres (onde hoje é o município de Torres). A data oficial da fundação desta Colônia é 17 de novembro de 1826, dia em que os colonos alcançaram a pequena povoação torrense.  

Com isso, Voges mudou-se para o litoral, passando a atender os colonos alemães protestantes que ocupariam o Vale do rio Três Forquilhas, próximo a Torres. Porém, a lei de 15 de dezembro de 1830 provocou reação por parte dos três pastores, os quais se viram nivelados aos outros imigrantes que também deixaram de receber o auxílio em dinheiro que o governo imperial lhes havia prometido. Sem o pagamento, Voges decidiu investir outra vez na disputa por São Leopoldo, deixando Três Forquilhas sem atendimento pastoral. Assim, após permanecer cerca de cinco anos no litoral, Voges retornou para São Leopoldo, a fim de reconquistar espaço e garantir remuneração para sua atividade. 

Com o firme propósito de permanecer em São Leopoldo, Voges adiantou-se em relação a seus colegas, encaminhando requerimento em 11 de janeiro de 1832. De todas as informações contidas nesse documento, a mais relevante é o pedido do pastor para que fosse nomeado para São Leopoldo: “e por isso recorre o suplicante a V.Exça. para que a vista do exposto se sirva mandar que o suplicante seja admitido como pastor dos colonos de São Leopoldo.” A resposta ao seu requerimento só foi divulgada em outubro de 1832, quando Voges viu-se reintegrado no emprego de pastor da Colônia das Torres, passando a receber a gratificação mensal de 20$000.  

No período em que permaneceu em São Leopoldo (1831-1833), Voges atendeu as comunidades de Dois Irmãos e arredores, realizando 98 batismos, sendo 44 em 1831, 42 em 1832 e 12 em 1833, quando já estava novamente designado como pastor de Três Forquilhas.  

A trajetória pastoral de Voges pode ser assim resumida:

 - 1824 a 8/11/1827: pastor no Rio de Janeiro; durante o deslocamento entre o Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Leopoldo e em São Leopoldo como 2º pároco

- 1827 a 1831: pastor em Três Forquilhas

- 1831 a 10/1832: pastor em São Leopoldo e retorno para Três Forquilhas

- 1832/33 a 1893: pastor em Três Forquilhas

Dos três primeiros pastores que atuaram em São Leopoldo, Voges foi o que teve a atuação mais diversificada, isto é, além de pastor, foi agricultor, proprietário de atafona, moinho e alambique, comerciante, empresário da navegação pelas lagoas do litoral e escravocrata. O fato de possuir uma venda e vender aguardente, fez com que seus colegas eclesiásticos tecessem duras críticas a sua forma de viver. Em relação a Voges, difícil concluir se foi a longevidade ou a capacidade de manter seu reinado espiritual praticamente intocado – ou os dois fatores combinados –, que proporcionaram a Voges quase sete décadas de pastorado. Com este currículo, tornou-se um personagem fascinante para o estudo da imigração alemã e do modo como os imigrantes se relacionaram entre si e com seus vizinhos nacionais. Maiores informações sobre a trajetória de Carlos Leopoldo Voges podem ser encontradas em WITT, Marcos Antônio. Em busca de um lugar ao sol: estratégias políticas (Imigração alemã – Rio Grande do Sul – século XIX). São Leopoldo: Oikos, 2008. 


 

[1] Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS; Associado ao Instituto Histórico do Rio Grande do Sul; Historiador do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.